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Trump revoga medidas de Obama contra mudanças climáticas

Rodeado por mineradores, o presidente americano Donald Trump assinou ontem a ordem executiva que determina o desmantelamento do Plano de Energia Limpa, o maior legado ambiental de Barack Obama. O decreto representa um respiro para a indústria de combustíveis fósseis, perseguida por seu antecessor, e um sinal da falta de prestígio das energias renováveis perante o novo inquilino da Casa Branca.

— Meu governo está colocando um fim à guerra ao carvão — anunciou Trump. — Com o decreto de hoje (ontem) estou dando passos históricos para levantar as restrições à energia americana, reverter a intromissão do governo e cancelar a regulamentação que mata empregos.

Fonte: EPA

Especialistas de diversas áreas protestaram contra o decreto. Economistas ressaltam que a indústria de energia eólica, solar e biomassa gera mais empregos do que os setores voltados à produção de carvão. Cientistas políticos e ambientalistas advertem que, se insistir em sua luta contra iniciativas voltadas à sustentabilidade, Trump isolará o país da comunidade internacional e, nas negociações climáticas, perderá o protagonismo para a China.

Vencedor do Prêmio Nobel da Paz pelo combate ao aquecimento global, o ex-vice-presidente Al Gore prevê que o decreto de Trump atingirá economicamente as próximas gerações.

— Este é um passo equivocado para longe de um futuro sustentável e sem carbono para nós e as futuras gerações. É essencial, não só para o nosso planeta, mas também para o nosso futuro econômico, que os EUA continuem a servir como um líder global na resolução da crise climática — disse.

METAS CLIMÁTICAS EM RISCO

Os governadores democratas da Califórnia, Jerry Brown, e de Nova York, Andrew Cuomo, reagiram à decisão e afirmaram que, apesar da medida do presidente, seguirão com suas políticas ambientais.

“Com ou sem Washington vamos trabalhar com nossos parceiros em todo o mundo para combater agressivamente as alterações climáticas e proteger o nosso futuro”, escreveram os políticos.

Com o aval para a economia movida a carvão, Trump tornará praticamente inviável que os EUA cumpram sua meta no Acordo de Paris. Em 2015, o país anunciou que cortaria até 2025 suas emissões de gases-estufa em cerca de 26%, em relação aos níveis registrados em 2005.

Especialista em negociações internacionais do clima, Osvaldo Stella define o decreto presidencial como um “retrocesso inegável”.

— É um gesto de cegueira estratégica. Trump está virando as costas para as mudanças climáticas em prol de negociações políticas, como o lobby do carvão — lamenta Stella, que também é diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). — Outros países, principalmente no grupo dos que estão em desenvolvimento, podem aderir à negligência americana e ignorar os compromissos que estabeleceram no Acordo de Paris.

Mesmo se voltando contra o acordo internacional, o governo americano está proibido de deixá-lo nos próximos quatro anos, de acordo com determinação do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC). Por isso, Stella acredita que, se outros países lucrarem neste período com investimentos em energia limpa, Trump pode retroceder e rasgar sua ordem executiva.

Professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Eduardo Viola afirma que uma parte expressiva da economia americana, inclusive as grandes corporações, já trocou a emissão de poluentes por fontes de energia renováveis e que, por isso, o decreto de Trump pode não provocar grandes impactos a longo prazo.

— As forças tecnológicas e econômicas da descarbonização são muito mais poderosas do que esta ordem executiva — assegura. — As tecnologias eólica e solar estão se tornando competitivas. As políticas de Trump poderiam prejudicar parcialmente a eficácia a curto prazo do Acordo de Paris, mas não acredito que isso terá efeitos a longo prazo.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, considera que a medida é péssima para o planeta, “mas pior ainda para a economia americana”.

— Nos EUA, o setor de energias renováveis gerou 12 vezes mais empregos do que a média da economia — sublinha. — Trump está depositando dinheiro no passado, nos setores que apoiaram sua campanha.

Durante a disputa eleitoral, Trump exaltou diversas vezes a indústria do carvão, prometendo que criaria empregos para a indústria de combustíveis fósseis. Em uma reunião na semana passada no Kentucky, ele disse que sua ordem executiva “salvaria nossos maravilhosos mineradores que estão perdendo espaço no mercado de trabalho”.

Segundo o Departamento de Energia dos EUA, as companhias de carvão empregavam cerca de 65,9 mil mineradores em 2015, contra 87,7 mil em 2008. Para economistas, a queda não tem ligação com as políticas ambientais de Obama — estão, na verdade, relacionadas ao aumento da produção de gás natural, uma matriz energética mais limpa e barata, e ao aumento da automação, que permitiu a fabricação de mais combustível com menos funcionários.

O Instituto de Economia e Análise Financeira estima que o consumo de carvão nos EUA caiu 27% desde 2005, de 1,02 bilhão de toneladas para 739 milhões de toneladas no ano passado, seu maior nível em quase quatro décadas. Cerca de 30% das usinas de carvão estão obsoletas e não são consideradas competitivas economicamente. Por isso, a revogação do Plano de Energia Limpa não provocaria aumento significativo de empregos no setor.

ELEITORADO APOIA IMPOSTOS PARA INDÚSTRIA

O presidente americano está em dissonância com a maioria de seu eleitorado. Segundo pesquisa realizada no ano passado pela Universidade de Yale, apenas 30% dos eleitores do republicano não acreditam que a temperatura do planeta está aumentando. Somente 28% rejeitam a participação dos EUA em um acordo para combater o aquecimento global. E 62% concordam com a implementação de impostos e regulações contra gases poluentes.

— A maioria dos americanos defende a ação climática, mesmo em estados governados por republicanos (tradicionalmente mais resistentes ao debate sobre o aquecimento global) — afirma Rittl. — Trump tem sido sistemático em sua ignorância sobre a ciência. Como resultado, pode perder competitividade no mercado internacional de tecnologia limpa. Brasil e China podem se aproveitar do espaço que os EUA deixarão em branco, por exemplo, no desenvolvimento de biocombustíveis.

Membro do IPCC, Paulo Artaxo explica que a retórica de Trump colide com os esforços para a retirada de combustíveis fósseis internacionalmente.

— Como a economia hoje é globalizada, é essencial que todos os países se unam — reivindica. — Neste sentido, o decreto de Trump é um passo atrás, porque representa o interesse de indústrias que estão não na vanguarda da tecnologia e das indústrias limpas, mas sim no atraso dos séculos XVIII e XIX, como a do carvão. Se os esforços do Acordo de Paris não forem contemplados, o aumento da temperatura pode chegar a até 4 graus Celsius. Seria devastador para o nosso sistema socioeconômico.

Em seus dois primeiros meses à frente da Casa Branca, Trump aboliu importantes restrições na área ambiental impostas por Obama. O republicano anulou um regulamento que proíbe as companhias de mineração de superfície de poluir vias navegáveis e rejeitou o aumento de taxações a companhias que exploram combustíveis fósseis.

Fonte: O Globo (goo.gl/WLTLqV)

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