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Pesquisa inédita apresenta a mais antiga forma de vida encontrada no Rio Grande do Sul


Armazenadas no Museu de História Geológica do Rio Grande do Sul, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), mais de 20 lâminas para microscopia preservam o resultado de uma pesquisa até então inédita no Estado. Divulgado nesta semana em artigo publicado na revista científica Scientific Reports/Nature, o estudo elaborado pela geóloga Ilana Lehn, em conjunto com os pesquisadores Rodrigo Horodyski e Paulo Sérgio Gomes Paim, apresenta os micro-organismos formados por uma única célula mais antigos já encontrados no Rio Grande do Sul.


Imperceptíveis a olho nu, são detectáveis com o auxílio de microscópio e podem ser vistos em detalhe em microscópio eletrônico, quando se alcança um aumento de até 700 mil vezes. Os fósseis corpóreos encontrados existiram no período Ediacarano — compreendido entre 630 e 542 milhões de anos atrás. Apesar de ainda não ser possível associá-los à nenhuma espécie, Ilana explica que eles se aproximariam do que hoje são as algas.

— Mesmo depois de 600 milhões de anos, a matéria orgânica desses organismos ficou preservada nas rochas, sem serem substituídos por outro material, algo pouco comum no processo de fossilização — ressalta a pesquisadora.


Para o estudo, Ilana, que pesquisa a vida existente em antigos ambientes envolvidos no processo de formação das rochas sedimentares da Bacia do Camaquã, no Pampa gaúcho, percorreu o entorno de Caçapava do Sul em busca de peças que pudessem comprovar a existência de vida no período. A região foi escolhida por ser uma zona que abriga registros em suas rochas de antigos ambientes de sedimentação, como mares, lagos e rios.


Com o auxílio de equipamento de laminação, a pesquisadora extraiu das rochas lâminas extremamente finas, cada filete tinha 30 micrômetros de espessura — um micrômetro é a milésima parte de um milímetro. Depois de analisar em microscópio ótico os detalhes físicos das rochas, Ilana partiu


para a identificação dos microfósseis presentes nas pedras. Usando técnicas da palinologia (estudo de microfósseis orgânicos ou palinomorfos) e dois diferentes tipos de ácidos, ela extraiu os micro-organismos das rochas estudadas.


— Esta é a evidência mais antiga de fóssil corpóreo até o momento encontrada no Rio Grande do Sul, que são os chamados acritarcas. Esta evidência é importante não só por ser o primeiro gauchinho, uma brincadeira nossa, mas por ser a primeira forma de vida desta idade registrada no Estado — explica Ilana.


Orientador da pesquisa de Ilana e coautor do artigo publicado na revista internacional, o geólogo Paulo Sérgio Gomes Paim confirma que a constatação feita pela pesquisadora é inédita no Rio Grande do Sul.


— É a primeira vez que encontramos organismos dessa idade no Estado e com composição orgânica ainda preservada. A evolução da vida é um dos temas mais importantes para conhecermos o nosso passado e pensarmos o nosso futuro. Por isso, a importância deste achado — salienta o orientador.


De acordo com Ilana, o mundo há muito discute a evolução e as primeiras formas de vida no planeta. Em Minas Gerais e Mato Grosso já há estudos abordando a questão, assim como nos vizinhos Argentina e Uruguai. Agora, com adescoberta realizada nos laboratórios da Unisinos, a Bacia do Camaquã passa a ser relacionada a diferentes localidades no mundo onde micro-organismos como estes já foram encontrados.


A geóloga destaca também a relevância do estudo por confirmar a presença de vida naquele período não apenas em ambientes marinhos, mas também em lagos. Ele certifica a ideia desenvolvida em outros países que sustentam a existência já naquele período de organismos vivos também fora do mar. Ilana aponta que o tema está ainda mais em foco devido à Astrobiologia, área de estudo que se utiliza do estudo das primeiras formas de vida na Terra em busca de indícios de vida em outros planetas.


A partir de setembro, a pesquisadora da Unisinos embarca para os Estados Unidos, onde continuará aprofundando a pesquisa de seu doutorado na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Ela terá o apoio de paleontólogos especializados em fósseis da idade dos que foram identificados no Rio Grande do Sul. Junto, como tem dito, carregará em lâminas os primeiros “gauchinhos” encontrados no Estado.

Fonte: Gaúcha ZH

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